"O Esboço do Calabouço" - É a imagem de um texto que se pretende perfeito, onde o autor nunca há de terminá-lo, e em seu enclausuramento, nunca poderá dele escapar."
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AGMAR RAIMUNDO - O Esboço do Calabouço
Um site para entender o universo dentro e fora da construção do pensamento artístico.
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UM CONTO DE FADAS MODERNO
 
Traçar-lhe um perfil era algo mais complicado que desvendar teorias sofistas. Sem a isenção da imparcialidade, gozam poetas, cantadores, repentistas, cordelistas e prosadores todos em rimas de “amor, dor, flor, coração e paixão”. Ela era uma intensa e belíssima mulher, desde a mais tenra idade. Sempre foi obcecada por tudo que fosse relacionado ao mundo do “Grande Peixe e suas histórias maravilhosas”. Parecia ter saído das crônicas de Lewis, companheira infinita das lendas, a própria Feiticeira Branca. Esforçava-se o mais que podia para não parecer piegas em aparências já um tanto batidas de princesas, cinderelas e barbies de prateleiras. Ela possuía a clarividência de fantasiar às suas próprias convicções e sempre surpreendia.
Quando se descrevia por monólogos soltos, enfezados e impacientes, típicos de sua personalidade, não poupava as ironias, nem os sarcasmos, os palavrões, que segundo ela, eram os libertadores do grito dos excluídos, tão quanto a verdadeira repressão para os pudicos.
Um novo dia aflora, com gosto doce das amoras, é um dia comum, mas não existem dias comuns em sua vida, existem dias pacatos, daqueles que você não precisa sujar os sapatos. Diz, num momento de introspecção:
 
“-- Minha vida se reinventa todos os dias! Todos os dias saio do útero dos problemas! Fazer as mesmas coisas por certo tempo, causa-me abortos espontâneos... e por isso, preciso me clonar; reinventar-me; dar luz a criações futuras de mim mesma! Preciso me auto reproduzir, pois a vida não tolera uma criação estática!”
 
Pensando em falsas e tropeçantes ideias para as possibilidades do dia, ela ia devorando alguns biscoitos recheados de chocolate, cada um em duas mordidas, passava a mão no canto da boca, como todos sempre fazem, por mania, para livrá-la dos farelos; com os cabelos soltos, ainda molhados do banho matinal, ela suspendia uma mecha de cabelo que lhe atrapalhava o olho esquerdo. Ali estava um corpo de mulher bem feito, com a plástica sincera dos 4 elementos da Natureza. Um molde que se faz pena utilizá-lo apenas uma vez. Com a lingerie a cobrir superficialmente seu corpo escultural, já passavam das dez da manhã. Enquanto tomava o seu desjejum, com suas frutas diversificadas, pães e bolo, relutava contra o desejo em provar um pedaço de queijo que se doava todo para ela, até que a tentação lhe foi mais fraca.
Era sábado, manhã perfeita, mas não queria os mesmos lugares-comuns – praias, shoppings, zoológicos, parques, caminhadas... deitada em almofadas tipo futon, pois tudo aquilo lhe era rotina. Deslizando os dedos em seu celular, vários ambientes se amontoavam, uma verdadeira selva das mesmas coisas. Demorou uma hora, mais ou menos, até que algo se protagonizou naquela tela minúscula, mas não era para o horário imediato que ela desejava, seria na parte da tarde, salvou endereços e telefone e pronto. Chegada a hora, dirige-se para o endereço, estranhamente não percebe ser aquele o lugar onde a mesma realmente deveria estar, ou ele deveria ser. Observou os arredores e seus endereços, mas nada sintonizava com o que ela procurava. Voltou para sua casa.
Divagando, lembrou-se numa das várias vezes em que esteve no bar que frequenta já há algum tempo ter conhecido um homem. Conversaram, beberam bastante, lembrou-se que como era simpático, dançaram... no fim da noite dirigiram-se para o seu apartamento. Quando amanheceu, naquele dia, encontrou apenas um cartão preto com um número de telefone e um endereço, nada de nome, e se ele o disse, já não lembrava mais. Seu sábado fracassou.
Passaram-se alguns dias, estava entediada, precisava de algo diferente para uma injeção de adrenalina naquele pedaço de vida monótona – solteiros não podem esperar pela vida, devem usar a vida! – Assim, pegou seu fichário de cartões, como antigamente fazia, desprezou o uso de agenda de celular. Depois de passar por uns 30 cartões, destacou-se aquele incógnito cartão preto – ela parou, olhou com atenção, pestanejou três vezes, e balançou a cabeça, como se dissesse: “Lembrei-me!” E foi aquele mesmo que ela decidiu ligar, no terceiro toque uma gravação lhe dá boas vindas e fazendo a divulgação de um evento que irá acontecer no local, com data, horário e tipo de evento; pegou-a pelos dois pés e pelas duas, ela sonhava com um evento daquele tipo. Chegado o dia   decidiu levar sua amiga, que a princípio não achou uma boa ideia, pois não tinha o mesmo espírito aventureiro do dela, mas com muita relutância de seu espírito decidiu não se martirizar.
Tentaram ligar para o número novamente em outro dia, mas a mensagem do mesmo era de número inexistente. Começaram ai as desconfianças, que tornavam tudo cada vez mais excitante.
Escolheram a sexta-feira como o dia de conhecerem o local, como belas observadoras do comportamento humano, saberiam mais do que ninguém e não temeriam nada que pudesse estar acontecendo em determinado lugar daquela cidade, que não afetariam seus juízos de valores.
Diante do pé do monte, digo, edifício, algo extraordinariamente colossal, a olho nu podemos ter a certeza que menos de 40 andares não tem; os vidros espelhados explodem luminosidade por toda a fachada e seus grandes holofotes que ficam presos na parte de cima do prédio, lhes dão mais beleza à noite. A dimensão de largura, quadrado por quadrado, lhes eram desconhecidas, pois, o seu alcance acabava se perdendo em vista das grandes distâncias aos quais se afastavam. Não viam movimentos de hotelaria, nem de restaurantes, mas viam muitas mulheres bonitas, muitas mesmo.
 
“-- Quando adentramos à recepção do edifício, o misterioso homem (sem nome) do cartão aparece como se fosse nossa sombra nos convidando para que nós o acompanhasse, nos preparando para tudo, explicou-nos onde estávamos, o que era o edifício, onde ficaríamos e mais alguns detalhes como regras.”
 
Até então, as duas estavam cientes de que estavam ali para participarem de um evento aceito pelas duas, até aí tudo bem...
Rumaram para a cobertura. Com um pouco de ansiedade e receio, entram no elevador e não tiram os olhos do mostrador que para em todos os andares, muitos descem, muitos sobem; todos bem vestidos; 20º andar, faltam 20... parou de contar. Quando chega no 39º andar sobem dois casais e um homem sozinho. Quando finalmente chega o 40º andar, para, e descem...
 
“-- Ué, vocês não vão descer?” indaga uma delas. --“Não aqui.” Diz uma das mulheres presentes no grupo. “-- Mas aqui não é a cobertura?” “-- Sim, é. Mas não é a cobertura que cobre a cobertura!” “-- E qual a diferença?” “-- Eis um mistério que só se pode descobrir tendo mui coragem e curiosidade. Vocês têm?”
 
O coração de ambas começa a disparar incessantemente, a própria ansiedade toma conta de seus corpos e suas mentes, num torpor de ideias embaralhadas tentavam se configurar para uma decisão tão simples, mas desafiadora. Até poucos momentos, elas sabiam o que estavam propostas a fazer ou não fazer, mas quando foram surpreendidas por aquelas pessoas, tudo mudou. O medo do desconhecido, tipo de Deus ou do diabo nos faz seres covardes, quando não, escravos de nós mesmos, imaginando que seremos castigados pelas ações realizadas na vida. Dizer Sim ou Não diante da dúvida é um ato racional, portanto, deve-se pesar cinquenta por cento para cada lado, assim sendo, deve-se acreditar na convicção de que o lado escolhido será o certo ou o de melhor resultado. Com uma convicção perturbadora envolta na dúvida, decidiram descobrir o mistério, decidiram enfrentar seus medos e ver o que havia naquela outra parte do edifício.
 
“-- Pois bem, venha conosco. Vamos nos preparar.”
 
O que as induziu àquele lugar tão megalomaníaco?, imaginem só, foi uma gravação telefônica promovendo um evento que se dizia ser uma Festa RAVE 24 horas numa boate neste endereço. Realmente o endereço existe e boates existem no edifício, mas nenhuma promove Raves; por exemplo, a que elas iriam ao invés de funcionar a boate, é um imenso espaço VIP exclusivo para a prática de Swing, onde casais, solteiros heterossexuais se encontram diariamente. Pode-se assistir apenas, ou participar, mas, para isso, demanda uma série de pré-requisitos. Para elas, como era a primeira vez, só estavam lá como visitantes.
Mas o jogo mudou, agora, elas não faziam mais parte da plateia, seriam o objetivo da plateia. Sem nada saberem, seguem os minutos que antecedem o mergulho com bastante aflição, pensam na burrada que fizeram em querer provar para si mesmas quão corajosas eram.
 
“-- Podemos desistir?” – “De maneira alguma, quando esta porta é fechada por fora, não há maneira mais de abri-la.”
“-- E como é que vamos descer daqui?” “– Adivinhem?!... Só não vamos nos suicidar, claro.” As duas mulheres entram em pânico e ficam terrivelmente histéricas.
 
Ambas foram adentrando num imenso salão projetado, provisoriamente, em cima da parte superior do edifício. Tudo muito espantoso, ornamentação com referências das épocas vitoriana, árabe e renascentista. No salão, aparentemente deveriam ter por volta de 500 pessoas, todas nuas e com as suas máscaras. Interessante observar quão diferente eram os corpos daqueles seres ali presentes – enquanto as mulheres eram curvilíneas, magras e sensuais; os homens tinham aspectos antediluvianos, surrados, desgastados, acabados, deteriorados, com suas barrigas gravitacionais exibindo seus despencados genitais e com as marcas dos sulcos enrugados pelas linhas do tempo. O que lhes seria aquilo tudo? Afastaram-se das pessoas, e quanto aos casais que estavam no mesmo grupo também desapareceram; começaram a beber sozinhas, atentas e desconfiadas a tudo o que estava acontecendo, tentavam preencher seu plano panorâmico com algum relance de fisionomia, mas era impossível, foi quando ouviram gritos altos e lascivos emendados não mais por gritos, mas por gemidos, foram olhar o que estava acontecendo. Melhor não terem ido, pois presenciaram terríveis cenas de sexo explícito. Como efeito dominó àquilo, o vírus se espalhou, quinhentas pessoas começaram a se amontoar em cima das outras, por baixo, por cima e por baixo ao mesmo tempo – sexo brutal – sem nenhum pudor, banalização - mulheres duras puxando como bezerros as pelancas vermelhas dos falos animais. Abaixo a monogamia! Tais quais as cortes de Nero. E onde elas se encaixavam naquele cenário? Amedrontadas, pois receavam a obrigação em participar daquele genocídio sexual – estupros infinitos por velhos nojentos e misóginos – nunca mais se sentiriam mulheres novamente. Estavam à mercê dos lobos e dos leões. Não havia nada o que pudessem fazer, não podiam deixar o local, e se esconder era muito difícil. A melhor ideia que tiveram foi a de servirem os velhos devassos com as centenas pílulas de Viagra que estavam sobre a mesa numa bandeja, era a cocaína deles. Junto com os comprimidos elas levavam muita bebida para embriaga-los rapidamente e não serem notadas. E assim o plano foi dando certo, aquelas múmias iam caindo aos poucos, bêbados, extasiados e fatigados, sobrando somente as prostitutas descontentes, procurando as peles de suas peles para esconder suas vergonhas ou se aquecer do frio.  
 
“ -- Nós estamos no topo de um prédio, que fica na ponta de um cânion, que tem total vista para o mar. Dá para voar por mais de vinte minutos.” Uma delas pensou. “Mas como toda essa gente vai descer?”
 
Passaram-se por volta de uma hora, os horrores da guerra dos corpos mutilados pelos gozos e orgasmos, os murros e os cansaços estampavam os trotes daqueles velhos bêbados e das esquálidas drogadas. Tudo voltava quase que ao normal: Bebidas sendo servidas, muita comida, música alta, mulheres expostas e ostentação. Como foram parar ali? Grandes aventuras! Loucuras! Loucuras! Loucuras!
Já era por volta da meia-noite, de repente, a estrutura do salão começou a ser desmontada, e, do nada começaram a vir, como se fossem kamikazes, um exército de helicópteros, naquela cobertura tinha espaço para três. A movimentação foi intensa, em menos de duas horas, todos os velhos já haviam partido. Sobraram apenas as prostitutas, alguns homens e as duas mulheres. Esses iriam encarar a pirâmide abismal do despenhadeiro noturno. “Eram dez asas-deltas, portanto, desciam dez pessoas, e como subirão os outros que levarão os que ficaram aqui? Pensaram.”
 
Passou dez minutos, eles estavam de volta, subindo pela porta.
 
“– Desgraçados a porta abre sim! Abram logo essa porta que nós queremos ir embora!”
“-- Calma. Ela só abre por dentro. Portanto, vamos com mais dez, vocês vão juntas.”
“-- Não. Queremos ir embora agora, e não vamos saltar!”
 
Mas, mesmo sabendo que podiam descer pelos elevadores, uma delas decidiu encarar o desafio.
Agregada ao par com outros noves pares, cerrando os olhos contra o vento forte, mantem-se nessa maneira por um bom tempo. Não grita, pois lhe é sinônimo de honra provar que não está apavorada. Passados alguns minutos, cintilando os olhos, ela, agora, consegue aproveitar a vista da orla que se abre abaixo de seus pés, a ressaca do mar que se aproxima cada vez mais da areia e a chegada a um ponto fixo de superfície vai sendo tramado pelo seu par. Aterrissam na areia da praia mesmo, nenhum risco aparente. Ele pergunta se a moça gostou da experiência:
 
“-- Grotesco! Algo terrível que não sei como conseguirei apagar da minha vida. Precisarei de sessões de terapia urgente. Já estou pensando nas noites perdidas, imaginando aquele monte de velhos decrépitos se esbaldando com o rabo cheio de Viagra. E essa última loucura agora, parece mesmo que estou drogada, ou coisa parecida, experiência tão desconfortável que dá próxima vez em que eu estiver afim de praticar um esporte radical, preferirei correr pelos corredores dos supermercados com os carrinhos de compras tentando enchê-los em menor tempo possível. Péssimo momento aquele que encontrei vocês.”
 
Na verdade, essa experiência ficaria gravada em sua vida para sempre. Para uma mulher que gostava de ter uma vida diferente, passar por um momento extravagante como o que passou, é um evento único em sua vida. Como diz: “Estava no lugar certo, na hora certa.” Não compartilharam essa informação com mais ninguém em suas vidas. Tentou encontrar aquelas pessoas por várias vezes, voltando ao edifício, mas nunca teve sorte. Até hoje se pergunta se realmente aquilo aconteceu de verdade.
Sendo assim, não foi feliz para sempre!
Agmar Raimundo
Enviado por Agmar Raimundo em 21/01/2017


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